domingo, 6 de abril de 2014

A saga do pai presente

Disparado, o post que mais faz sucesso aqui no blog é "Ah, os numeros". Ele chegou a ser lido mais de 20 mil vezes em um único dia e o motivo é fácil de perceber: ele prova matematicamente que os homens podem participar tanto quanto as mulheres (ou mais!) na criação de um bebê.

O problema é que além de quebrar o paradigma, aprender depois de adulto noções que as meninas trazem da infância e ainda ser tirado pra viado o candidato a pai presente precisa enfrentar, vejam só, discriminação! E não tô falando só de gente olhando com cara de "hã?" o cara empurrando o carrinho. Tô falando disso aqui ó:

Licença paternidade bizarra
Todo mundo sabe que a licença paternidade é de 5 dias corridos. Há um tempo me falaram que tinha mudado mas só o que encontrei foram projetos que tramitam para aumentar isso para 30 dias. Boa tentativa, mas apesar do esforço continua sendo uma porcaria. A mãe tem 4 a 6 meses pra adaptar a vida à chegada da cria. Por que o pai tem uma merreca de 5 dias ou 1 mês que seja?

Resposta automática: "Porque a mãe precisa amamentar."

Uma ova! A lei vale também para mães adotantes, que tem tanto leite nos peitos quanto eu.

Benefícios desiguais
Algumas empresas pagam a suas funcionarias auxilio-creche, outras oferecem berçário no local de trabalho. Veja que eu disse FUNCIONÁRIAS. Se falar de novo sobre amamentação, cabe aqui lembrar de novo que esse benefício, quando existe, também vale para mães adotantes.

Outro benefício muito interessante que já vi em algumas empresas é o que permite a funcionária a acompanhar filho internado por até 15 dias. FuncionáriA mesmo. FuncionariO não tem.

E se você por acaso acha que isso faz algum sentido, pense no estardalhaço que seria se uma empresa concedesse algum benefício apenas para homens.

Fraldários constrangedores
Você já deve ter visto que hoje em dia há fraldários para todo lado. As grandes distâncias das metrópoles, o investimento dos empresários em manter o cliente o dia todo dentro de suas lojas, entre outras coisas colocaram essa facilidade no cenário.

É inacreditável, mas há muitos lugares aonde o fraldário fica dentro do banheiro feminino. Um belo exemplo é o aeroporto de Brasilia. Que mancada! Quando passei por lá, juro que se não estivesse com a Elaine ia trocar o guri em cima da esteira de bagagem e ainda deixar a fralda cheia de bosta rodando junto com as malas.

Planos de saúde engraçadinhos
Existem planos de saúde que pagam acomodação em enfermaria ou quarto compartilhado e não permitem acompanhante. Já tá mais do que na hora de por bem ou por mal esses putos aceitarem que o pai é peça fundamental desde o parto. É o momento de aprender o básico, ter as dúvidas junto com a mãe, dar assistência a parceira que tem que repousar e de quebra ainda ser a cabeça pensante no momento que se diz muita bobagem a mãe semi-anestesiada.

Vou parar por aqui, mas a lista de coisas que dificultam o pai ser pai de verdade é longa.
Por isso se você concorda que um cara tem que fazer tanto quanto sua parceira na criação dos pequenos, faça sua parte e encha o saco de todo mundo por condições mais iguais. Algumas sugestões:

  • Se seu plano de saúde faz parte dos engraçadinhos que citei acima, abra uma reclamação formal sobre isso no canal de atendimento deles.
  • Quando você for a um estabelecimento que não tem fraldário no lugar certo, procure a administração e registre uma reclamação
  • Se você tem uma empresa, pense sobre a possibilidade de conceder benefícios também aos pais. Faça cálculos, converse com seus funcionários. Analise a possibilidade de oferecer um turno alternativo (16h as 00h por exemplo). Estude a possibilidade de alguns setores poderem trabalhar de casa. Não espere pela lei. Acredite: muita gente aceitaria um salário menor em uma empresa que ajudasse a ficar mais perto dos moleques.
  • Se você é empregado e sua empresa oferece um benefício desigual, registre uma reclamação no RH e se te ignorarem procure o sindicato da sua categoria.
  • Abandone a idéia de que na criação dos filhos "tem coisa que só mãe entende". Isso é tão atrasado quanto falar que homem não chora. Tem coisa que só mãe entende porque é só ela que cuida do filho. Bota o marmanjo lá pra cuidar junto que ele também vai passar a entender. Talvez você ache isso uma bobagem, mas pro mundo mudar a mentalidade das pessoas precisa mudar. Não existe absolutamente nada que faça uma mãe ter mais competência que um pai pra criar um filho e vice-versa. Precisamos parar de vender essa idéia de "coisa só pra mãe".
São mudanças profundas, eu sei. Mas é bem fácil apontar dedos pros pais e fechar os olhos para essas desigualdades. As mulheres conquistaram muita coisa nas últimas décadas e agora é hora de se juntarem a seus parceiros, ajudar a conseguir o mesmo para eles e abrir caminho pra um mundo que não olha esquisito pra um pai trocando fraldas.

"Homens de verdade trocam fraldas"

14 comentários:

  1. Parabéns Flávio, vc acabou de levantar uma bandeira. Tenho certeza que aparecerão muitos seguidores. Realmente tem muitas leis que precisam ser analisadas e alteradas. Muitos conceitos precisam ser revistos. Muito boa sua iniciativa. A Elaine deve estar muito feliz por ter um marido tão parceiro assim e o Pedro vai ficar muito orgulhoso do pai quando puder entender tudo isso que está sendo postado. Abraço.

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  2. Vou dar meu testemunho, caros irmãos da teta seca.

    Uma vez estava avaliando opçõespra mudar de emprego. Uma das empresas, de sao paulo (capital), em sua lista de benefícios, citava bercario no local. Fiquei bem interessado, e estava ja curtindo e pensando em aceitar a proposta mesmo que nao fosse exatamente o que eu esperava de $$$. Pois bem, depois da entrevista com a equipe de projeto, fui atrás de alguém do rh para pedir pra ir ver o berçário. Me levaram para ver, mas como dito acima, era um beneficio apenas para funcionariAS. Ta certo, a empresa se gabava de ser woman friendly, mas caramba... faria tanta diferença estender esse benefício? Fiquei bem decepcionado com isso.... No fim, queriam me contratar, mas acabei optando por ir pra uma cidade do inteior, ganhando um pouco menos, mas com mais tempo pra minha família.

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    1. Cara, muito obrigado pelo relato. Numa época que todo mundo fica falando por aí que falta mão de obra no mercado eu acho que tá faltando mesmo é um pouco de cérebro na empresa.

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  3. Concordo plenamente! Por exemplo não se pensa muito (tratado como uma tradição) a recém mamãe se mudar por alguns dias para a casa da mãe, ou a mãe p dela p ajudar com as primeiras semanas de vida da.criança. Acho isso legal, mas se papais pudessem ficar mais tempo em casa isso seria mais tranquilo... Eu tive o.privilegio de ter o lucas (papai) trabalhando.d casa e isso fez toda a difrença. Poder ficar em casa e se adaptar a nova rotina... Todos deveriam poder usufruir disso.
    Achei legal tbm qdo fui comprar a bolsa de bebê... Escolhi duas uma verde, lisa, neutra, e outra d florzinha rosa... Tive a certeza d q o.lucas nao usaria a de flor. Enganei-me! Colocou a bolsa de flozinha c o maiot orgulho!
    Outro sinal d q os tempos estão mudando, as mulheres ficam A-pai-xo-na-das por papais q cuidam dos seus bebês! Comentarios do tipo: "óin q lindo!" " aiii q amor!" foram constantes em um passeio no shopping em que lucas carregava a Catarina no canguru.
    Então, mãos à obra homarada!!!

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    1. Obrigado Rachel. A bolsa de tigre eu ainda não consegui assimilar. Vou trocar uma idéia com o mestre Lucas-bolsa-de-flor.

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  4. Flávio, meu filho,que maravilhoso, vc levantar essa questão "PAIS E MÃES "
    cuidando dos filhos, igualmente. A questão dos planos de saude, fraldário e beneficios foi um texto sensacional Acredito que este post, irá colocar muitos pais e mães em movimento pra que isso mude e melhore muita coisa nesse sentido.Estou torcendo pra que isso aconteça.Parabéns.beijão

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  5. Eu tive que pagar a famigerada "Diferença de Acomodação" para ficar no quarto
    com a Carol, quando o JP nasceu. Outra coisa: peguei os 5 dias de licença paternidade mais 5 dias de banco de horas mais 20 dias de férias... 30 dias em casa com a familia e ainda vendi 10 dias...

    Reflexo de uma sociedade machista...

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  6. Parabéns meu filho, isso vai dar muito o que falar tenha certeza e vc esta com toda razão.

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  7. to amando suas postagens...não perco um só dia e leio para o meu marido quando chega em casa e ele adora ouvir cada detalhe e se diverte...vc é o CARA!

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  8. Acho que acompanhante para o parto agora é lei. Ou essa lei só se trata de acompanhante na sala de parto? Não sei bem.

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    1. Oi Marina. Essa lei é só pra acompanhar na sala de parto. Não conta pra ficar junto na enfermaria.

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  9. Oi Flavio!
    Cheguei no seu blog justamente pelo tal post do números e fiquei pq gostei da sua forma prática de pensar, da sua honestidade e do seu humor! =)

    Achei muito legal seu ponto de vista sobre esse tema aqui! Estamos tão acostumados cultural e socialmente a achar que "pai bacana é o que troca uma fralda de vez em quando pq 'ajuda' a mãe" e a criticar os que não fazem isso, que não percebemos que o buraco é bem mais embaixo!
    De fato, há muito o que mudar! Mas como se diz aqui no Chile: "vamos que se puede!!!"
    Excelente levantada de bandeira!!

    Bjs

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    1. Oi! Obrigado. É isso aí mesmo. "Audar" já era. :)

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